O valor econômico da polinização: o serviço que ninguém paga mas todo mundo usa

A polinização por insetos — especialmente abelhas — é um serviço ecossistêmico essencial para a agricultura mundial. Aproximadamente 87% das espécies de plantas com flores do planeta dependem de polinizadores para reprodução, e no contexto agrícola, estima-se que 35% do volume global de alimentos produzidos depende, em algum grau, da polinização por insetos. No Brasil, a Embrapa estima que o valor econômico da polinização para o agronegócio supere R$ 43 bilhões por ano — número que inclui a contribuição direta em frutas, hortaliças, oleaginosas e forrageiras.

As culturas de maior dependência de polinizadores no Brasil são a melancia, o melão, a maçã, o pêssego, a amêndoa de cacau, o maracujá, a soja (parcialmente), o algodão (parcialmente) e praticamente todas as frutíferas tropicais. Sem polinização adequada, a produtividade dessas culturas cai de 20 a 80% — impacto que raramente é atribuído à ausência de abelhas porque a relação de causalidade não é visível no campo.

O declínio das populações de abelhas: causas e consequências

Globalmente, as populações de abelhas — tanto as manejadas (Apis mellifera) quanto as nativas silvestres — estão em declínio. As causas são multifatoriais: uso excessivo de pesticidas (especialmente neonicotinoides, que afetam o sistema nervoso dos insetos), perda de habitat florestal e de florações naturais, proliferação do ácaro Varroa destructor (que parasita colmeias de Apis mellifera) e doenças bacterianas como a Loque Americana.

No Brasil, o declínio é documentado principalmente para abelhas nativas — que têm papel ecológico mais amplo que a Apis africanizada — e está associado ao desmatamento de matas ciliares e cerrado, à redução de florações diversas pelo monocultivo intensivo e ao uso de herbicidas que eliminam plantas invasoras que serviriam de alimento para os polinizadores.

Meliponicultura: a criação de abelhas nativas sem ferrão

As abelhas nativas sem ferrão (meliponíneos) — como jataí, manduri, uruçu, tiúba e outras — são adaptadas às condições climáticas brasileiras e polinizadoras mais eficientes que a Apis para muitas culturas tropicais. A meliponicultura — criação racional dessas abelhas — é uma atividade em forte crescimento no Brasil, impulsionada pela demanda por mel de qualidade superior (mais saboroso e com maior atividade antimicrobiana que o mel de Apis) e pelos serviços de polinização que essas abelhas prestam às culturas.

Uma caixa de meliponíneos produz de 1 a 5 litros de mel por ano — muito menos que uma colmeia de Apis (30 a 80 litros/ano). Mas o preço do mel de abelhas nativas no mercado premium é de R$ 80 a R$ 200 por litro — 5 a 10 vezes o preço do mel convencional. Em regiões onde o ecoturismo e os mercados de produtos da sociobiodiversidade estão desenvolvidos, a meliponicultura pode gerar renda superior por esforço comparável à apicultura convencional.

Quem destrói o habitat das abelhas na fazenda destrói o serviço de polinização que sustenta sua própria produtividade. Conservar as abelhas é agronomia, não sentimentalismo.

Locação de colmeias para polinização: um mercado emergente

Nos EUA e na Europa, a locação de colmeias para polinização de amêndoas, maçãs e mirtilos é um mercado consolidado que movimenta bilhões de dólares. No Brasil, esse mercado está em estágio inicial mas crescendo rapidamente — especialmente na fruticultura irrigada do Vale do São Francisco e na maçicultura de Santa Catarina.

Produtores de melão no Nordeste que contratam colmeias de abelhas para polinização reportam aumento de 15 a 30% na produtividade e melhora significativa no formato e peso dos frutos. O custo de locação de uma colmeia — R$ 150 a R$ 400 por safra dependendo da região — é amplamente compensado pelo ganho de produtividade. Apicultores que oferecem esse serviço precisam de colmeias saudáveis, com alto nível de população, e devem negociar o calendário de locação com antecedência — especialmente para coincidir com o período de floração da cultura.

Como o produtor pode proteger os polinizadores na sua propriedade

Algumas práticas de manejo têm impacto direto na preservação dos polinizadores na fazenda. A mais importante é evitar a aplicação de inseticidas durante o período de floração das culturas — quando as abelhas estão em plena atividade e o risco de intoxicação é máximo. Aplicações noturnas, quando as abelhas estão na colmeia, reduzem a exposição. Produtos à base de glifosato não afetam as abelhas diretamente, mas eliminam plantas com flores que servem de alimento nos períodos de entressafra.

Manter faixas de vegetação nativa ou de plantas floridas (como girassol, crotalária ou tremoço) nas bordaduras da lavoura é uma prática de baixo custo que sustenta populações de polinizadores nativos entre as safras — com benefício direto na polinização e no controle biológico de pragas por parasitoides que também dependem dessas florações para sua sobrevivência.