A história do cacau brasileiro: queda e ressurgimento

No início dos anos 1980, o Brasil era o segundo maior produtor mundial de cacau, com a região cacaueira do sul da Bahia — em especial os municípios de Ilhéus e Itabuna — produzindo mais de 400.000 toneladas por ano sob a sombra dos centenários cacaueiros em sistemas de cabruca (consórcio de cacau com mata nativa). Em 1989, a vassoura-de-bruxa (Moniliophthora perniciosa) chegou aos cabrucas baianos e se espalhou de forma devastadora — reduzindo a produção para menos de 100.000 toneladas em apenas dez anos e arruinando fazendas e famílias de toda a região.

Em 2026, o ressurgimento é real: a produção nacional voltou a 270.000 a 290.000 toneladas, com a Bahia novamente liderando mas agora com o Pará crescendo rapidamente como segundo polo produtor. A chave para esse renascimento foi o desenvolvimento e a adoção de cultivares resistentes à vassoura-de-bruxa — como o Cacau Clonal da Ceplac — e a crescente valorização do cacau fino de origem no mercado internacional de chocolate premium.

Cotação do cacau e os dois mercados: commodity e fino

O cacau commodity — negociado na Bolsa de Nova York (ICE) e na ICE de Londres — está em março de 2026 em torno de US$ 9.200 por tonelada (Londres), nível recorde impulsionado por problemas de produção na Costa do Marfim e em Gana (que juntos respondem por mais de 60% do cacau global). Esse preço elevado beneficia os produtores brasileiros que vendem no mercado convencional.

Mas o verdadeiro prêmio está no mercado de cacau fino (fine flavor): amêndoas de cacau com perfil sensorial excepcional — notas frutadas, florais ou achocolatadas complexas, sem amargor excessivo — que são compradas diretamente por chocolateiros artesanais para produção bean-to-bar. Nesse segmento, o cacau baiano fino é negociado entre R$ 15.000 e R$ 22.000 por tonelada em 2026 — de 4 a 6 vezes o preço do cacau commodity convertido em reais.

O movimento bean-to-bar e o chocolate artesanal brasileiro

O chocolate bean-to-bar é produzido por chocolateiros que controlam todo o processo — da escolha das amêndoas à barra final — em vez de comprar cobertura de chocolate industrializada. Esse modelo permite expressar as nuances de cada origem e cultivar no produto final, de forma similar ao que os produtores de vinho fazem com as uvas de diferentes terroirs.

No Brasil, o movimento bean-to-bar cresceu exponencialmente entre 2018 e 2026: há mais de 200 chocolateiros artesanais identificados, de micro-operações familiares em Ilhéus até chocolaterias com lojas em São Paulo e Rio de Janeiro vendendo barras de R$ 30 a R$ 120 por 80g. Marcas como Luisa Abram, Baiani e Amma Chocolate ganharam prêmios internacionais e constroem a narrativa do "chocolate brasileiro de origem" no mercado global.

O cacau baiano fino que se transforma em chocolate bean-to-bar premiado em Paris vale 20 vezes mais do que o cacau commodity que vai para a indústria de confeitaria. A diferença começa no campo — na genética, no pós-colheita e no produtor que sabe para quem está produzindo.

Pós-colheita: fermentação e secagem como determinantes da qualidade

A qualidade sensorial do chocolate bean-to-bar começa na fermentação das amêndoas — processo que ocorre nas fazendas nos dias seguintes à colheita. A polpa açucarada que envolve as amêndoas é fermentada por leveduras e bactérias ao longo de 5 a 7 dias em caixas de madeira, desenvolvendo os precursores de aroma que definirão o sabor final do chocolate. Uma fermentação bem conduzida — com controle de temperatura, revolvimento nos momentos certos e cobertura adequada — é o que separa cacau fino de cacau ordinário com a mesma genética.

A secagem ao sol posterior — por 7 a 14 dias em bancadas ou terreiros limpos — completa o processo, reduzindo a umidade das amêndoas de 35% para 7,5% (nível ideal para armazenagem e exportação). A secagem lenta ao sol produz amêndoas com perfil sensorial mais complexo do que a secagem artificial em secadores a lenha — e é um requisito de muitos chocolateiros premium que buscam o perfil de "secagem solar" nos cacaus que compram.

Como o produtor de cacau acessa o mercado premium

O caminho para o mercado de cacau fino começa pela qualificação sensorial das amêndoas — o produtor precisa enviar amostras para análise por painel sensorial treinado. A Ceplac (Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira) e a AMMA Chocolate em parceria com produtores baianos oferecem esse serviço de cupping (degustação analítica) que informa o perfil sensorial do lote.

Produtores com cacau acima de 80 pontos na escala de avaliação sensorial da FCIA (Fine Chocolate Industry Association) têm acesso a chocolateiros artesanais e exportadores de cacau fino que pagam os maiores prêmios. A construção desse relacionamento — via participação em concursos como o Harvest e o FCIA Awards — é a estratégia de longo prazo para consolidar a reputação e o canal de vendas premium.