O açaí: do ribeirinho ao mercado global

O açaí é hoje o produto símbolo do Brasil no mercado global de superalimentos. Uma trajetória extraordinária: há 25 anos, era consumido exclusivamente pelas populações ribeirinhas do Pará como alimento básico — vendido em saquinhos plásticos nas feiras de Belém por centavos. Em 2026, é o segundo produto mais pesquisado em receitas nos EUA, ingrediente obrigatório em menus de restaurantes europeus e item de prateleira em mais de 45 países.

O Pará responde por 93% da produção nacional de açaí — fruto do palmeiro Euterpe oleracea que cresce naturalmente nas várzeas amazônicas. A safra vai de agosto a dezembro, com pico em setembro e outubro. A cadeia produtiva é longa: do extrativista que sobe a palmeira para colher os cachos à batida da polpa nas amassadeiras de Belém, ao congelamento e exportação pelas processadoras.

O paradoxo do açaí: valor gerado vs. valor capturado

Uma tigela de açaí num restaurante de saúde em Nova York ou em Amsterdã custa de US$ 12 a US$ 25. Essa tigela contém aproximadamente 120g de polpa de açaí — que o Brasil exportou a US$ 2,20 por kg, ou seja, US$ 0,26 de polpa. A diferença entre US$ 0,26 e US$ 20 é o valor capturado por intermediários, processadores, importadores, restaurantes e o poder da marca do produto no mercado de destino.

O Brasil captura menos de 20% do valor final gerado pelo açaí no mercado internacional — os 80% restantes ficam nas mãos de empresas estrangeiras que processam, embalam, distribuem e constroem a narrativa do produto. Esse paradoxo não é exclusivo do açaí: é o padrão histórico do Brasil como exportador de matéria-prima que não sobe na cadeia de valor.

O cupuaçu: o próximo açaí no mercado global?

O cupuaçu (Theobroma grandiflorum) é primo do cacau — mesmo gênero, fruto maior, polpa branca e ácida que produz sucos, sorvetes e cremes excepcionais. A manteiga extraída das sementes do cupuaçu tem propriedades similares à manteiga de cacau e é usada pela indústria cosmética e por chocolateiros que buscam alternativa sustentável ao cacau. O cupulate — produto análogo ao chocolate mas feito de cupuaçu — é um dos projetos mais ambiciosos da Embrapa Amazônia Oriental em termos de desenvolvimento de novos produtos de alto valor.

Em 2026, a manteiga de cupuaçu é exportada a R$ 40 a R$ 55 por kg — principalmente para indústrias cosméticas europeias. O volume ainda é pequeno (menos de 500 toneladas por ano) pela limitação da coleta e do processamento, mas a demanda supera a oferta consistentemente. Chocolaterias premium como a Baiani e a Luisa Abram já usam cupuaçu em linhas especiais — construindo a narrativa do "chocolate da Amazônia" que pode ser tão valorizado quanto o cacau fino.

O açaí prova que a Amazônia tem produtos que o mundo quer. O cupuaçu, o buriti e a copaíba provam que o açaí foi apenas o primeiro. O que falta é a cadeia de processamento e o investimento em marca no destino final.

Fair trade e certificações: como o produtor captura mais valor

As certificações de comércio justo (Fairtrade International, SPP — Símbolo de Pequenos Produtores) garantem ao consumidor final que o produtor na origem recebeu preço justo e que as condições de trabalho são adequadas. Para o exportador brasileiro certificado, o prêmio Fairtrade adiciona US$ 0,15 a US$ 0,35 por kg de polpa de açaí — mais o acesso a redes de distribuição premium que preferem produto certificado.

A certificação orgânica é outro diferencial que os mercados europeu e americano valorizam: açaí coletado em floresta nativa sem aplicação de agroquímicos se qualifica para certificação orgânica relativamente fácil — o maior desafio é a rastreabilidade da coleta e a documentação do processo de extração da polpa. Cooperativas como a Cooperativa Açaí do Marajó e a Camta (PA) já têm certificação orgânica e Fairtrade, vendendo para importadores europeus com prêmio de 40 a 60% sobre o preço spot.

O que o Brasil precisa fazer para capturar mais valor

A resposta é óbvia mas a execução é complexa: subir na cadeia de valor. Em vez de exportar polpa congelada a granel, exportar açaí em pó liofilizado (que vale de 8 a 12 vezes mais por kg), açaí em cápsulas, bebidas prontas para beber com açaí e outras formas processadas de maior valor agregado. O desafio é construir marcas brasileiras que consigam espaço nas prateleiras europeias e americanas — mercados dominados por marcas locais que simplesmente compram a polpa brasileira e a embalam com seus rótulos.

Algumas iniciativas avançam nessa direção: a marca brasileira Sambazon — curiosamente fundada por americanos, não por brasileiros — é o maior sucesso de uma marca de açaí no mercado americano. A ironia é que ela compra açaí do Pará, processa nos EUA e captura a maior parte do valor fora do Brasil. O desafio brasileiro é criar equivalentes da Sambazon gerenciados e capitalizados por brasileiros — com tecnologia de processamento, acesso a canais de distribuição e capacidade de construir marca no longo prazo.