A posição do Brasil no mercado global de milho
O Brasil consolidou-se como segundo maior exportador mundial de milho — posição que era dos Estados Unidos há décadas e que o Brasil assumiu progressivamente com a expansão da safrinha. A vantagem estratégica brasileira é temporal: a safrinha é colhida entre junho e agosto, exatamente quando os EUA ainda estão plantando e a oferta global de milho novo americano ainda não chegou ao mercado. Nessa janela de 4 a 6 meses, o Brasil é praticamente o único grande fornecedor disponível para os importadores asiáticos e do Oriente Médio.
Em 2026, as estimativas apontam para exportações de milho entre 33 e 37 milhões de toneladas — volume que representa de 20 a 23% do comércio global de milho. Esse protagonismo é resultado direto da expansão da safrinha no Centro-Oeste, da melhoria logística com novos terminais no norte do país e do investimento das tradings em capacidade de armazenagem e escoamento portuário.
Os principais destinos do milho brasileiro
O Japão é o maior comprador individual de milho brasileiro — importa aproximadamente 5 a 6 milhões de toneladas por ano para alimentação animal e produção de amido e álcool. O compromisso de longo prazo do Japão com o milho brasileiro é sustentado pela ausência de produção doméstica significativa e pela qualidade consistente do produto brasileiro.
O Irã ocupa o segundo lugar — surpreendente para muitos — com importações de 4 a 5 milhões de toneladas anuais para alimentação de aves e suínos. Apesar das sanções ocidentais que complicam as transações financeiras, o Brasil mantém o fluxo comercial com o Irã por meio de arranjos financeiros alternativos. A Coreia do Sul, o Vietnam, o Egito e a Arábia Saudita completam os principais destinos asiáticos e do Oriente Médio.
A janela de exportação brasileira e como ela funciona
O ciclo de exportação do milho brasileiro começa em março-abril, quando os primeiros volumes da safrinha começam a ser negociados para entrega futura, e atinge o pico entre junho e setembro — período de colheita e maior disponibilidade do grão. Nessa janela, as tradings embarcam pela ferrovia e rodoviárias para os terminais portuários de Santos, Paranaguá, São Francisco do Sul, Barcarena e Santarém.
A competição entre os terminais portuários para atrair fluxo de milho é intensa. O Corredor Norte — especialmente os terminais de Miritituba e Barcarena no Pará — tem ganhado participação pela vantagem de distância à Ásia em relação aos portos do Sul. Para milho do Mato Grosso, o Corredor Norte é 15 a 20% mais barato que o trajeto até Paranaguá — diferença que chega ao produtor via melhor preço de compra pelas tradings no Centro-Oeste.
O Brasil não compete com os EUA no milho — o Brasil exporta quando os EUA não têm para vender. Essa complementaridade é uma vantagem estrutural que a Argentina e o Ucrânia não têm na mesma escala.
Preço FOB Santos e como ele afeta o produtor
O preço de referência para exportação de milho brasileiro é o FOB Santos (Free On Board) — o preço do grão colocado no navio no porto de Santos, já com todos os custos logísticos incluídos. Em março de 2026, o preço FOB Santos de milho está entre US$ 185 e US$ 198 por tonelada — equivalente a R$ 63 a R$ 68 por saca de 60 kg ao câmbio de R$ 5,90.
O preço que o produtor do Mato Grosso recebe é o FOB Santos menos o custo logístico de Sorriso ao porto — que varia de R$ 15 a R$ 25 por saca dependendo do modal e da distância. Isso significa que o produtor mato-grossense recebe R$ 43 a R$ 53 por saca para milho de exportação — explicando a pressão constante para reduzir o frete e melhorar a logística do Centro-Oeste.
Milho OGM e não-OGM no mercado de exportação
O mercado europeu de importação de milho é altamente restritivo quanto a OGMs — exige segregação, identidade preservada e certificação de não-transgenia. Como mais de 90% do milho brasileiro é transgênico, o acesso do Brasil ao mercado europeu de milho é limitado a volumes de não-OGM que poucos produtores se organizam para produzir com segregação adequada.
Os mercados asiáticos — Japão, Coreia, Tailândia — são mais tolerantes a OGM mas exigem aprovação dos eventos biotecnológicos específicos presentes no milho exportado. Eventos aprovados nos principais mercados de destino são condição de exportabilidade — tradings verificam sistematicamente a compatibilidade dos eventos antes de comprar e embarcar o milho.