A dependência estrutural que o Brasil não resolveu
O Brasil é um paradoxo agrícola: produz mais alimentos do que qualquer outro país em termos de crescimento de área e produtividade, mas depende de 85% de importação dos insumos que fertilizam essa produção. O potássio vem principalmente da Rússia, Belarus e Canadá. O fósforo, do Marrocos e da Rússia. O nitrogênio — na forma de ureia e amônia — vem da Rússia, Ucrânia e Oriente Médio.
Essa dependência ficou exposta de forma brutal em 2022, quando a guerra entre Rússia e Ucrânia e as sanções ocidentais à Bielorrússia — segundo maior exportador de potássio do mundo — criaram escassez global e fizeram os preços dos fertilizantes triplicar em questão de meses. O Brasil, que importa 98% do potássio que usa, sentiu o impacto diretamente no custo de produção da soja e do milho.
Preços dos principais fertilizantes em março de 2026
| Fertilizante | Preço (R$/t) | Variação 12 meses |
|---|---|---|
| Ureia granulada | R$ 2.100 | ▼ −8% |
| MAP (11-52-00) | R$ 3.480 | ▼ −5% |
| Cloreto de Potássio (KCl) | R$ 2.650 | ▲ +3% |
| Superfosfato Simples (SFS) | R$ 1.180 | ▼ −12% |
| Superfosfato Triplo (SFT) | R$ 2.320 | ▼ −7% |
| Sulfato de Amônio | R$ 1.680 | ▼ −4% |
Os preços de março de 2026 representam normalização após o pico de 2022, mas ainda estão significativamente acima dos patamares pré-2020. A ureia, por exemplo, que custava em torno de R$ 1.100/t em 2020, opera hoje 90% acima desse nível. Produtores que projetam custos com base em dados históricos anteriores a 2021 estão subestimando o custo real de adubação.
Como o mercado global de fertilizantes funciona
O mercado de fertilizantes é oligopolizado: poucos países controlam as reservas das matérias-primas essenciais. O potássio é dominado por Canadá, Rússia e Belarus — os três juntos respondem por mais de 70% da produção mundial. O fosfato tem 75% das reservas mundiais no Marrocos. Esse grau de concentração torna o mercado altamente sensível a eventos geopolíticos.
O nitrogênio, por ser produzido a partir do gás natural, tem dinâmica diferente: países com gás barato (Rússia, países do Golfo, EUA com gás de xisto) têm vantagem de custo na produção de ureia e amônia. A produção brasileira de nitrogênio — via Petrobras — é pequena e insuficiente para o consumo doméstico, mas a empresa tem planos de expansão que podem reduzir a dependência no longo prazo.
O Brasil que produz comida para o mundo não produz os nutrientes para fertilizar o solo que alimenta o mundo. Resolver essa equação é questão de segurança nacional, não apenas de negócio.
Estratégias para reduzir o custo de adubação
A compra antecipada de fertilizantes — antes do pico de demanda que ocorre entre agosto e novembro — permite ao produtor economizar de 8 a 18% em relação ao preço de plantio. Cooperativas e associações de produtores que compram em grupo conseguem descontos adicionais de 3 a 7% pela escala de volume. A combinação dessas duas estratégias pode reduzir o custo de adubação em até R$ 400 por hectare na soja.
No médio prazo, a análise de solo por zonas de manejo é a ferramenta mais poderosa para reduzir o desperdício de fertilizante. Aplicar adubo em taxa variável — mais nas áreas deficientes, menos nas áreas férteis — elimina o excesso de aplicação que não resulta em produtividade adicional. Estudos da Embrapa documentam reduções de 15 a 25% no consumo total de fertilizante com a adoção de taxa variável, sem perda de produção.
Insumos biológicos: a alternativa que cresce
O Brasil lidera o mercado global de bioinsumos agrícolas — produtos à base de microrganismos que fixam nitrogênio atmosférico, solubilizam fósforo ou controlam pragas biologicamente. O inoculante de soja com Bradyrhizobium, que fornece nitrogênio às plantas sem custo de fertilizante sintético, já é adotado em mais de 95% da área de soja — economia estimada em R$ 600 a R$ 800/ha em nitrogênio que não precisa ser aplicado.
Novos bioinsumos para milho e cana — como inoculantes de fixação biológica de nitrogênio (FBN) para gramíneas — estão sendo lançados comercialmente em 2025-2026, com potencial de reduzir em 20 a 40% a dose de ureia necessária. A adoção ainda é baixa fora da soja, mas a tendência é de crescimento acelerado conforme os produtos ganham registro e os agrônomos ganham confiança nos resultados.