O cerrado como bioma de alta gastronomia e biodiversidade econômica

O Cerrado é o segundo maior bioma do Brasil e um dos hotspots de biodiversidade mais ricos do planeta — com mais de 12.000 espécies de plantas, das quais uma parcela significativa produz frutos, sementes e óleos com potencial econômico ainda amplamente subutilizado. Enquanto o Cerrado perde área para a expansão agrícola convencional, os produtos da sua biodiversidade ganham mercado em nichos de alto valor: gastronomia criativa, cosméticos naturais, suplementos alimentares e exportação de ingredientes exóticos para a Europa e os EUA.

Em 2026, o mercado de produtos da sociobiodiversidade do Cerrado — termo que engloba tanto os produtos de extrativismo sustentável quanto os de cultivo de espécies nativas — cresce a taxas de 25 a 35% ao ano. O pequi, o baru, a cagaita, o buriti, o murici e o araticum são as espécies de maior relevância comercial atual, com nichos bem definidos em cada segmento de mercado.

O pequi: a fruta símbolo do Cerrado

O pequi (Caryocar brasiliense) é a fruta mais conhecida e consumida do Cerrado, especialmente em Goiás e Minas Gerais onde é ingrediente central da culinária regional — arroz com pequi, frango com pequi, licor de pequi. O fruto é coletado principalmente por extrativistas familiares nos meses de novembro a fevereiro, quando os frutos caem naturalmente ao chão.

O óleo de pequi tem demanda crescente no mercado de cosméticos naturais — é rico em ácido oleico e carotenoides, com propriedades emolientes e antioxidantes valorizadas pela indústria de beleza natural. Em 2026, o óleo de pequi prensado a frio e certificado orgânico é vendido no atacado a R$ 40 a R$ 50 por kg — valor que tem estimulado o surgimento de pequenas cooperativas de beneficiamento em municípios do Cerrado goiano e mineiro.

O maior desafio do mercado de pequi é a sazonalidade absoluta — a fruta só está disponível por 3 a 4 meses por ano — e a dificuldade de escalar o extrativismo sem impactar as populações naturais. O cultivo de pequizeiros em sistemas agroflorestais é tecnicamente viável mas de maturação longa (8 a 12 anos até plena produção), o que limita a expansão rápida da oferta cultivada.

O baru: a amêndoa que virou superalimento

O baru (Dipteryx alata) é uma leguminosa arbórea do Cerrado cuja amêndoa tem perfil nutricional excepcional: 27% de proteína, 40% de gordura insaturada (similar ao amendoim mas com melhor balanço de ômega), 11% de fibra e alta concentração de magnésio, cálcio e zinco. Essa composição — aliada ao sabor agradável, entre o amendoim e o castanha-de-caju — transformou o baru em ingrediente de destaque em barras de cereal, granolas premium, chocolates e snacks saudáveis.

Em 2026, a amêndoa de baru beneficiada é vendida entre R$ 25 e R$ 35 por kg no atacado — valor que compete com a castanha-de-caju de qualidade similar. A escassez de oferta cultivada (a maioria ainda vem de extrativismo) mantém os preços altos, mas limita a penetração em mercados de maior volume. A castanha-de-baru tem potencial de se tornar o "amendoim do Cerrado" — uma versão premium e sustentável de uma oleaginosa de alta demanda global.

O Cerrado não é só espaço para lavoura. É um banco genético de produtos que o mundo ainda não conhece — e quando conhecer, vai pagar muito bem por eles.

Buriti: o óleo mais rico em betacaroteno do mundo

O buriti (Mauritia flexuosa) é uma palmeira icônica do Cerrado e da Amazônia cujo óleo extraído da polpa do fruto tem o maior teor de betacaroteno (pró-vitamina A) de qualquer alimento de origem vegetal — mais de 500 mg por 100g, 100 vezes mais que a cenoura. Esse atributo torna o óleo de buriti altamente valorizado na indústria de cosméticos naturais e na alimentação funcional.

O óleo de buriti prensado a frio certificado é vendido no mercado internacional de cosméticos a US$ 40 a US$ 80 por kg — um dos óleos vegetais de maior valor por kg disponíveis globalmente. Empresas brasileiras como Beraca e Biobrasil já exportam óleo de buriti para marcas europeias e americanas de cosmética natural, e a demanda supera consistentemente a oferta disponível de extrativismo sustentável.

Como o produtor rural pode monetizar a biodiversidade do Cerrado

A estratégia mais acessível para o produtor rural do Cerrado é a proteção e o manejo das espécies nativas existentes na Reserva Legal e nas APPs da propriedade — que não precisam ser custosamente replantadas, pois já estão lá. O cadastramento como coletor de produtos da biodiversidade no sistema do Ministério do Meio Ambiente é o passo formal necessário para a comercialização legal.

O segundo passo é encontrar o canal de comercialização: cooperativas como a Cooperacerrado (GO), a ASCOB (MG) e diversas organizações apoiadas pelo FUNBIO e pelo BNDES conectam extrativistas e pequenos produtores do Cerrado a compradores na indústria alimentícia e cosmética. O beneficiamento local — torrar e embalar a amêndoa de baru, prensas de pequi e buriti, desidratação de cagaita — adiciona valor e melhora a margem retida na origem.