As origens: século XIX e o garanhão Sublime

A história do Mangalarga começa em 1812, quando o Príncipe Regente Dom João VI presenteou o Barão de Alfenas, Gabriel Francisco Junqueira, com o garanhão Sublime — um cavalo da Real Coudelaria de Alter do Chão, em Portugal, de sangue Real (cruzamento de Alter Real com sangue árabe e andaluz). O Barão cruzou o Sublime com éguas locais brasileiras (descendentes dos cavalos ibéricos trazidos pelos colonizadores) na fazenda Campo Alegre, em Baependi, Minas Gerais.

O resultado foi um cavalo diferenciado: porte médio, marcha suave, resistência ao trabalho e temperamento dócil — características que rapidamente se espalharam pelo interior de Minas Gerais e São Paulo, onde fazendeiros passaram a buscar reprodutores da linhagem do Barão de Alfenas para melhorar seus rebanhos.

A divisão: Marchador vs. Paulista

Ao longo do século XX, a raça se desenvolveu em dois caminhos distintos, influenciados pelos criadores de diferentes regiões:

Em Minas Gerais, os criadores selecionaram animais para a marcha batida — andamento em quatro tempos sem momento de suspensão, com sobrepassagem diagonal dos membros. Esse grupo formou o Mangalarga Marchador, registrado pela ABCCMM (Associação Brasileira dos Criadores do Cavalo Mangalarga Marchador).

Em São Paulo, os criadores selecionaram para a marcha picada — quatro tempos laterais com momentos de apoio bipedal lateral, sem sobrepassagem. Esse grupo formou o Mangalarga Paulista, registrado pela ABCCRM (Associação Brasileira dos Criadores do Cavalo da Raça Mangalarga).

A separação oficial das duas raças foi formalizada em 1934, quando cada grupo criou sua própria associação e definiu seus critérios de registro. Até hoje há debate entre os criadores sobre qual é o "verdadeiro" Mangalarga — mas ambas as raças têm suas próprias exposições, competições e mercado consolidados.

A evolução genética do Paulista no século XX

O Mangalarga Paulista incorporou ao longo do século XX maior influência de sangue árabe e Puro Sangue Inglês (PSI) do que o Marchador — buscando mais velocidade, refinamento e altura. Essa linha de seleção resultou em um animal geralmente mais alto (médio de 158 cm), mais leve na mão e com perfil mais atlético.

A partir dos anos 1970, com a mecanização do campo reduzindo a necessidade do cavalo como ferramenta de trabalho, o Paulista passou a ser selecionado também para o hipismo — salto, adestramento e enduro — ampliando seu mercado além da fazenda.

A ABCCRM e o registro da raça

A Associação Brasileira dos Criadores do Cavalo da Raça Mangalarga (ABCCRM) é o órgão oficial que registra, controla e promove o Mangalarga Paulista no Brasil. O registro de nascimento é feito com base na genealogia (pais registrados na raça), confirmada por DNA desde 2010. O studbook (livro de registros) da raça tem mais de 600.000 animais registrados — tornando o Mangalarga o cavalo mais numeroso do Brasil.

O Paulista nas exposições e nos esportes

As exposições de Mangalarga Paulista avaliam os animais em múltiplas categorias: conformação (morfologia ideal da raça), andamentos (qualidade da marcha picada em pista), pelagem e apresentação. Os Campeonatos Nacionais, realizados anualmente, são os maiores eventos da raça — reunindo milhares de animais de todas as regiões do Brasil e movimentando volumes significativos no mercado de animais de alto valor.

Qual a diferença entre Mangalarga Paulista e Mangalarga Marchador no registro?

São raças distintas com registros em associações diferentes — animais registrados na ABCCRM (Paulista) não são aceitos no studbook da ABCCMM (Marchador) e vice-versa. Cruzamentos entre as duas raças geram animais sem registro em nenhuma das associações puras. Para manter o valor do registro e a pureza da raça, é fundamental cruzar apenas animais registrados na mesma associação.