O papel dos acordos comerciais na competitividade do agro brasileiro

O agronegócio brasileiro é profundamente dependente do acesso a mercados internacionais — 40 a 50% da produção de soja, milho, carne e café é exportada. As condições em que essa exportação ocorre — tarifas de importação nos países de destino, quotas de acesso, barreiras sanitárias e fitossanitárias — são determinadas por tratados comerciais negociados pelos governos. O produtor rural que nunca ouviu falar de Mercosul, OMC ou acordo bilateral está sujeito às consequências dessas negociações sem perceber.

Em 2026, o principal evento do comércio exterior do agronegócio brasileiro é a ratificação do acordo entre o Mercosul (Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai) e a União Europeia — o maior acordo comercial já negociado em termos de PIB combinado, que inclui significativas concessões de acesso para produtos agropecuários brasileiros ao mercado europeu.

O acordo Mercosul-UE: o que está em jogo para o agro

O acordo Mercosul-UE foi concluído em julho de 2019 mas ficou pendente de ratificação pelos parlamentos dos estados membros europeus. Em 2026, o processo de ratificação avançou significativamente — com o Parlamento Europeu aprovando o texto em fevereiro de 2026 e os parlamentos nacionais em processo de votação. A previsão é de entrada em vigor completa a partir de 2028, com período de transição de 10 anos para implementação gradual das reduções tarifárias.

Para o agronegócio brasileiro, os principais ganhos são: ampliação das cotas de carne bovina para a UE (de 99.000 para 180.000 toneladas anuais, com tarifa reduzida de 20%), aumento das cotas de açúcar (de 180.000 para 650.000 toneladas), acesso para frango (novo quota de 180.000 toneladas), redução de tarifas para café torrado, etanol, mel e frutas tropicais.

As contrapartidas exigidas pela UE

O acordo não vem sem exigências. A UE inclui cláusulas de condicionalidade ambiental — o Mercosul se compromete a implementar o Acordo de Paris e a não ampliar desmatamento em biomas específicos. A aplicação do EUDR (regulamento europeu contra desmatamento) às importações do Mercosul é parte do pacote regulatório que acompanha o acordo.

Para produtos agropecuários, haverá exigência de certificação sanitária mais rigorosa — especialmente para carne bovina (rastreabilidade individual, protocolos de bem-estar animal) e para frutas e verduras (LMR de defensivos alinhados aos padrões europeus, que são mais restritivos que os brasileiros para muitos ingredientes ativos).

O acordo Mercosul-UE não é presente. É oportunidade condicionada a adaptação. Quem se adaptar às exigências europeias antes captura o mercado. Quem esperar a obrigatoriedade vai chegar tarde.

Outros acordos relevantes em 2026

Além do acordo com a UE, outros arranjos comerciais afetam o agronegócio brasileiro. O acordo com a Coreia do Sul — aprovado pelo Senado em 2025 — reduz progressivamente as tarifas coreanas sobre carne bovina, frango e suínos brasileiros. O acordo com o Canadá está em negociação avançada, com interesse especial do lado canadense em acesso ao mercado de suinocultura.

O Mercosul em si — acordo de livre comércio entre Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai — tem impacto direto no agro pelo livre fluxo de produtos agrícolas dentro do bloco, especialmente no trigo argentino que abastece o Brasil e no milho e soja que fluem em ambas as direções conforme as safras de cada país.

Como os acordos afetam o preço recebido pelo produtor

A relação entre tratados comerciais e o preço ao produtor é indireta mas real. Quando o acordo Mercosul-UE ampliar as cotas de carne bovina para a Europa, os frigoríficos brasileiros poderão exportar mais volume a preços europeus — que são superiores aos preços asiáticos — o que aumenta a demanda por animais e pressiona a arroba para cima domesticamente.

Para a soja, o efeito é mais complexo: a Europa já compra soja brasileira com tarifa zero (zero MFN para soja em grão) — o acordo não muda isso. O impacto positivo para a soja virá indiretamente, via maior acesso para frango e suínos (que consomem farelo de soja como ração) e para etanol (que usa soja e milho como insumo de biodiesel).