O que dizem as estimativas para a safra 2024/25

A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) projeta para a safra 2024/25 uma produção de aproximadamente 165 milhões de toneladas de soja — o maior volume já registrado na história do agronegócio brasileiro. Esse número supera em 3,8% a colheita anterior e consolida o Brasil como o maior produtor e exportador global da oleaginosa, à frente dos Estados Unidos.

A área plantada também bateu recorde, com 44,7 milhões de hectares destinados à soja — equivalente a quase metade do território da França. A expansão da fronteira agrícola no MATOPIBA (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) responde por parte desse crescimento, com produtores migrando de pastagens para lavouras de grãos em busca de maior rentabilidade.

Estados produtores: quem lidera e quem cresce mais rápido

O Mato Grosso mantém sua posição de maior estado produtor de soja do Brasil, respondendo por cerca de 30% da produção nacional. A região de Sorriso, conhecida como "a capital do agronegócio", abriga fazendas com produtividade média superior a 65 sacas por hectare — resultado de anos de investimento em tecnologia e melhoramento genético.

O Paraná ocupa o segundo lugar, com produção que se beneficia da logística mais desenvolvida e do clima subtropical, que reduz a incidência de algumas pragas. O Rio Grande do Sul, terceiro colocado, teve safra impactada por irregularidades climáticas associadas ao fenômeno El Niño, que causou deficit hídrico em fases críticas do desenvolvimento da cultura.

Ranking de produção por estado (estimativa 2024/25)

Clima e produtividade: o que aconteceu nesta safra

A safra 2024/25 foi marcada por uma distribuição de chuvas mais equilibrada nas principais regiões produtoras do Centro-Oeste durante o período de floração e enchimento de grãos — duas fases críticas onde o deficit hídrico causa perdas irreversíveis na produtividade. O resultado foi uma produtividade média nacional superior a 3.500 kg/ha, com recordes pontuais em municípios do Mato Grosso e Goiás.

O Sul do país viveu uma realidade diferente. O Rio Grande do Sul e partes do Paraná enfrentaram veranicos que reduziram a produtividade em até 15% em relação ao potencial genético das cultivares plantadas. Esse diferencial regional é comum na produção de soja brasileira e reforça a importância de não generalizar os resultados nacionais para todas as propriedades.

Uma safra recorde para o Brasil não significa que todos os produtores tiveram boa safra. O clima é local e os resultados são heterogêneos.

Exportações: para onde vai a soja brasileira

A China é o destino de aproximadamente 70% das exportações brasileiras de soja em grão. Essa concentração é tanto uma oportunidade quanto um risco: qualquer desaceleração na demanda chinesa — seja por razões econômicas, por competição proteica com outras fontes ou por disputas comerciais — tem impacto direto no mercado brasileiro.

Os outros principais compradores são a União Europeia (especialmente Países Baixos, Espanha e Alemanha), que importa soja para a indústria de ração animal, e países do sudeste asiático que estão expandindo rapidamente sua produção de proteína animal. O Brasil tem trabalhado diplomaticamente para diversificar seus compradores, com resultados graduais mas positivos.

Impacto da safra recorde nos preços

O paradoxo da safra recorde é que a abundância de oferta tende a pressionar os preços para baixo. Com mais soja disponível, as tradings e processadoras têm menos urgência de comprar e podem negociar com mais poder. O produtor que não vendeu antecipado — travando um preço quando as cotações estavam mais altas — vê a safra sendo comercializada em condições menos favoráveis.

Esse fenômeno explica por que a rentabilidade do produtor de soja em 2025 é menor do que em 2022, mesmo com a produção maior. Volume não é sinônimo de lucro quando o preço cai proporcionalmente — ou mais — do que o aumento de produção.

Tecnologia e produtividade: o diferencial dos que ganham dinheiro

A safra 2024/25 evidenciou ainda mais o abismo de produtividade entre os produtores que investem em tecnologia e os que operam de forma tradicional. Fazendas com uso de agricultura de precisão, cultivares de alta performance e manejo nutricional ajustado por análise de solo reportaram produtividades acima de 70 sacas por hectare em regiões onde a média ficou em 58.

Essa diferença de 12 sacas por hectare, multiplicada por 1.000 hectares de área e pelo preço de R$ 140/sc, representa R$ 1,68 milhão de receita adicional na mesma área, com custos variáveis semelhantes. O investimento em tecnologia se paga na produtividade, não nas margens unitárias.

O que esperar da safra 2025/26

As projeções iniciais para a safra 2025/26 — cujo plantio começará em outubro de 2025 — apontam para área estável ou levemente maior. A decisão de planting dependerá da rentabilidade da safra atual: se as margens ficarem comprimidas, parte dos produtores pode migrar para outras culturas ou reduzir investimentos por hectare.

O clima é a variável mais incerta. Modelos meteorológicos apontam para uma transição para La Niña no segundo semestre de 2025, o que historicamente traz consequências distintas para diferentes regiões: potencial de seca no Sul e chuvas mais abundantes no Centro-Oeste. O monitoramento climático será fundamental para as decisões de plantio.