O sorgo como alternativa estratégica ao milho
O sorgo granífero é um cereal de origem africana cultivado há milênios em condições de escassez hídrica. No Brasil, cresceu como alternativa ao milho safrinha em regiões de Cerrado onde o risco climático de deficit hídrico é elevado — especialmente quando o plantio do milho ocorre fora da janela ideal. Sua principal vantagem competitiva é a capacidade de entrar em dormência durante períodos de seca e retomar o crescimento quando a umidade volta — mecanismo que o milho não possui.
Em 2026, o sorgo ocupa aproximadamente 1,5 a 2 milhões de hectares no Brasil — número que cresceu consistentemente nos últimos cinco anos conforme os produtores do Centro-Oeste identificaram no cereal uma alternativa de menor risco climático e custo de produção mais baixo para a terceira época de plantio (após a janela ideal do milho safrinha).
Cotação e mercado do sorgo em 2026
O sorgo não tem contrato futuro próprio no Brasil — sua cotação é referenciada em relação ao milho, com desconto histórico de 8 a 15% por saca de 60 kg. Com o milho a R$ 68/sc em Goiás, o sorgo opera entre R$ 56 e R$ 62/sc na mesma praça. Esse diferencial reflete o fato de que o sorgo tem valor energético ligeiramente inferior ao milho na dieta de aves e suínos — mas a diferença agronômica é pequena e alguns formuladores já equiparam os dois cereais em suas matrizes nutricionais.
A demanda do sorgo vem principalmente de três mercados: ração animal (que consome cerca de 70% da produção), etanol (especialmente usinas mistas que processam milho e sorgo no mesmo equipamento) e alimentação humana direta — em crescimento, especialmente o sorgo branco sem tanino que é isento de glúten e adequado para celíacos.
Custo de produção: a principal vantagem
O custo de produção do sorgo granífero no Cerrado goiano está estimado em R$ 38 a R$ 46 por saca — aproximadamente 20 a 25% abaixo do custo do milho safrinha na mesma região. Essa diferença vem de três fontes: menor necessidade de nitrogênio em cobertura (o sorgo é mais eficiente no uso do N), ausência de royalties de cultivares transgênicas (o sorgo tem variedades abertas de boa performance) e menor custo de colheita por hectare (produtividade menor por área, mas ciclo mais curto).
A produtividade média do sorgo no Cerrado gira em torno de 55 a 70 sacas por hectare — inferior ao milho safrinha bem manejado (80 a 100 sc/ha), mas plantado em épocas onde o milho já não seria viável ou teria risco muito elevado. O sorgo ocupa a janela de plantio de fevereiro a abril — depois da janela ideal do milho — transformando área que ficaria ociosa em produção efetiva.
O sorgo não compete com o milho. Ele ocupa o espaço onde o milho não seria viável — e faz isso com custo menor e risco menor. Essa é a lógica que explica o crescimento da cultura.
Manejo agronômico: diferenças em relação ao milho
O sorgo tem manejo parecido com o milho, mas com algumas diferenças importantes. O espaçamento entre fileiras pode ser reduzido (45 a 50 cm) para aproveitar melhor a cobertura do solo e competir com daninhas. A densidade de plantio é de 100.000 a 120.000 sementes por hectare — similar ao milho. A adubação de base segue as recomendações da análise de solo, mas a adubação nitrogenada em cobertura pode ser 20 a 30% menor que no milho.
O controle de pulgão do sorgo — principal praga da cultura — requer monitoramento semanal a partir do florescimento. A presença de taninos nas cultivares com pericarpo colorido pode repelir pássaros (importante em regiões com alta pressão de pombas e pardais), mas reduz a digestibilidade para aves e suínos — o que influencia a aceitação pelo comprador de ração e, consequentemente, o preço recebido.
Perspectivas: o sorgo tem futuro no Brasil?
O crescimento do sorgo no Brasil tem fundamento estrutural: as mudanças climáticas aumentam a frequência de eventos de seca no Cerrado, tornando o milho safrinha de plantio tardio cada vez mais arriscado. O sorgo, como cultura tolerante à seca, preenche essa lacuna com crescente eficiência agronômica — novas cultivares híbridas desenvolvidas pela Embrapa e pela iniciativa privada têm elevado a produtividade em 15 a 20% em relação às cultivares de cinco anos atrás.
O mercado de etanol de sorgo doce (versão forrageira com caldo rico em açúcares) também está em desenvolvimento em algumas usinas do Centro-Oeste como alternativa à cana-de-açúcar no período de entressafra. Se esse mercado se consolidar, criará uma demanda adicional que pode valorizar ainda mais o sorgo no mercado brasileiro.