O Brasil como líder mundial nas exportações de tabaco

O Brasil é, desde os anos 1990, o maior exportador mundial de folha de tabaco — posição que mantém em 2026 com exportações de US$ 2,5 a US$ 3 bilhões por ano. O paradoxo é que o brasileiro médio não vê o tabaco como produto agrícola importante — é uma cultura associada principalmente ao pequeno agricultor familiar do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, longe das narrativas do agronegócio do sertão e do cerrado.

Aproximadamente 155.000 famílias fumicultoras cultivam tabaco no Sul do Brasil, quase todas em regime de integração vertical com as grandes multinacionais do setor — Philip Morris, British American Tobacco, Japan Tobacco International e Alliance One. Nesse modelo, as empresas fornecem sementes, assistência técnica e garantem a compra da produção a preço pré-acordado — similar ao que ocorre na suinocultura e avicultura integrada.

O sistema de integração e o preço da folha

O preço da folha de fumo é negociado anualmente entre as empresas e associações de fumicultores. Em 2026, o preço médio pago pela folha de fumo virgínio curado a ar está entre R$ 18 e R$ 26 por quilo, dependendo da classificação (classe, cor e teor de nicotina). O fumo burley, de menor teor de nicotina, é ligeiramente mais barato. A produtividade média está em torno de 2.800 a 3.200 kg por hectare.

Com receita de R$ 50.000 a R$ 80.000 por hectare ao produtor e custo de produção de R$ 35.000 a R$ 48.000/ha (incluindo mão de obra familiar), a margem líquida do fumicultor integrado está entre R$ 15.000 e R$ 32.000 por hectare — uma das mais altas entre culturas de pequena propriedade no Sul do Brasil. Essa rentabilidade explica por que, apesar das pressões sociais e políticas sobre o setor, a maioria dos fumicultores continua na atividade.

Para onde vai o tabaco brasileiro

O principal destino das exportações brasileiras de tabaco são os países da Ásia — China, Japão, Coreia do Sul e Indonésia — que respondem por aproximadamente 45% do volume exportado. A Europa (especialmente Alemanha, Bélgica e Países Baixos, que processam e reexportam) absorve outros 30%. Os EUA, apesar das restrições regulatórias domésticas ao tabaco, importam folha brasileira para blends de charutos e cigarilhas premium.

O tabaco brasileiro é valorizado no mercado internacional pela consistência de qualidade — cor, teor de nicotina e características de combustão controladas pelo sistema integrado — e pela disponibilidade de volumes significativos mesmo em anos de variação climática. A classificação rigorosa da folha pelas empresas processadoras garante que o comprador externo receba o produto exatamente conforme especificado.

O fumicultor do Sul do Brasil não escolhe o tabaco por vocação — escolhe pela rentabilidade em uma propriedade pequena onde poucas outras culturas pagam o que o fumo paga. Esse cálculo só muda quando a alternativa é igualmente rentável.

As pressões do antitabagismo e o futuro da cultura

O tratado internacional de controle do tabaco (FCTC — Framework Convention on Tobacco Control), ratificado pelo Brasil e por mais de 180 países, inclui diretrizes que incentivam a diversificação de renda dos fumicultores — reconhecendo que a demanda global por tabaco deve declinar no longo prazo conforme as políticas antitabagismo avançam. O Programa Nacional de Diversificação em Áreas Cultivadas com Tabaco (PNDACT) existe desde 2005 para apoiar fumicultores que queiram migrar para outras culturas.

Na prática, a diversificação ainda é lenta. As alternativas disponíveis — alho, cebola, hortaliças — não replicam a rentabilidade do tabaco nas mesmas condições de pequena propriedade do Sul. O tabaco se adapta a topografia ondulada impraticável para mecanização de outras culturas, requer mão de obra disponível na pequena propriedade familiar e tem comprador garantido via integração. Sem uma política pública robusta que ofereça garantia de preço e comprador para as culturas alternativas, a substituição avança muito mais lentamente do que os defensores do controle do tabaco gostariam.