O algodão brasileiro no cenário global

O Brasil consolidou sua posição como terceiro maior exportador mundial de algodão em pluma, atrás apenas dos Estados Unidos e da Índia. A produção brasileira, concentrada no Mato Grosso (que responde por mais de 65% do total nacional), Bahia e Goiás, atingiu 3,2 milhões de toneladas de pluma na safra 2025/26 — número que representa a estabilização após anos de expansão acelerada.

A competitividade do algodão brasileiro no mercado internacional está ancorada em produtividade superior à média global — mais de 1.900 kg de pluma por hectare contra a média mundial de 780 kg — e em qualidade consistente de fibra, reconhecida pelos fiandeiros asiáticos que valorizam o HVI (High Volume Instrumentation) brasileiro.

Cotação atual e fatores de mercado em 2026

A cotação do algodão na Bolsa Intercontinental (ICE Futures) opera em março de 2026 na faixa de US$ 0,70 a US$ 0,75 por libra-peso — nível que representa queda significativa em relação ao pico de US$ 1,60/lb registrado em 2022, mas que ainda remunera adequadamente produtores com custo de produção controlado.

Os principais fatores que pressionaram as cotações para baixo nos últimos dois anos incluem: expansão da oferta global, especialmente da Índia e dos EUA; desaceleração da demanda têxtil na China, afetada pela transição econômica do país para setores de maior valor agregado; e crescimento da competição das fibras sintéticas — especialmente o poliéster — cujo preço caiu com a normalização dos preços do petróleo.

Cotação do algodão por praça (março 2026)

Estados produtores e suas características

O Mato Grosso domina a produção brasileira de algodão com características que explicam sua liderança: escala, mecanização total e logística melhorando continuamente com expansão ferroviária. As fazendas algodoeiras do cerrado mato-grossense têm área média acima de 5.000 hectares e operam com colheitadeiras de alta capacidade, secadores e prensas próprias.

A Bahia ocupa o segundo lugar, com produção no Oeste baiano — a região de Luís Eduardo Magalhães e Barreiras — que combina clima semiárido quente com sistemas de irrigação que garantem regularidade de produção. O algodão baiano tem perfil de qualidade ligeiramente distinto do mato-grossense, com fibra mais longa em algumas cultivares adaptadas à região.

O algodão brasileiro compete globalmente pela produtividade, não pelo custo de mão de obra. É uma vantagem construída em tecnologia, não em salário baixo — e isso a torna sustentável no longo prazo.

Custo de produção e rentabilidade em 2026

O custo de produção do algodão no Mato Grosso está estimado em R$ 8.500 a R$ 10.500 por hectare para a safra 2025/26 — um dos mais altos entre as culturas de grãos e fibras, reflexo da complexidade do manejo e do alto consumo de defensivos necessário para controlar o bicudo-do-algodoeiro e outras pragas.

Com produtividade média de 350 arrobas por hectare e preço de R$ 4,10/@, a receita bruta é de aproximadamente R$ 14.350/ha — gerando margem bruta de R$ 3.850 a R$ 5.850/ha dependendo do custo específico de cada propriedade. Essa margem é inferior à soja em anos de preço similar, mas o algodão compensa pela possibilidade de comercialização da caroça (subproduto) e pela inserção em contratos de longo prazo com tradings têxteis.

A cadeia têxtil e o valor da fibra certificada

O algodão brasileiro que atende aos critérios do Cotton Brazil — programa de sustentabilidade da ABRAPA — acessa mercados com prêmio sobre a cotação convencional. Marcas globais como H&M, Inditex (Zara) e Patagonia têm compromissos de compra de algodão sustentável e pagam de US$ 0,03 a US$ 0,08/lb acima da bolsa por fibra certificada.

Para o produtor, aderir ao Cotton Brazil implica em registros de rastreabilidade, uso responsável de defensivos e cumprimento de critérios ambientais — incluindo a proibição de expansão de área sobre vegetação nativa e a regularidade no CAR. O custo de implementação é estimado em R$ 80 a R$ 150/ha no primeiro ano, valor que tende a ser recuperado no prêmio de preço ao longo de duas a três safras.

Perspectivas para o restante de 2026

O mercado global de algodão em 2026 deve seguir em equilíbrio instável entre oferta elevada e demanda em recuperação gradual. A retomada do consumo têxtil chinês — que mostrou sinais de recuperação no segundo semestre de 2025 — é o principal catalisador de alta que o mercado aguarda. Se o consumo per capita de vestuário na China retornar aos níveis pré-2022, a demanda por algodão importado deve crescer, favorecendo as cotações.

Para o produtor brasileiro, a estratégia mais consistente é combinar trava de preço antecipada para 50 a 70% da produção — aproveitando eventuais momentos de alta antes da colheita — com investimento contínuo em produtividade e certificação, que são os diferenciais de longo prazo do algodão brasileiro no mercado global.