O Brasil como potência do setor sucroenergético

O Brasil é o maior produtor mundial de cana-de-açúcar e o maior exportador de açúcar do planeta — respondia por aproximadamente 26% das exportações globais em 2025. Ao mesmo tempo, é o único país do mundo com uma matriz de combustíveis líquidos em que o etanol de cana compete de verdade com a gasolina em escala nacional, graças à frota flex-fuel de mais de 35 milhões de veículos.

Essa dupla posição — líder em açúcar e pioneiro no etanol — dá ao setor sucroenergético brasileiro uma flexibilidade única: as usinas podem ajustar o mix de produção entre açúcar e etanol semana a semana, em resposta às cotações relativas dos dois produtos. É essa flexibilidade que torna o setor resiliente a choques de preço e que complica a análise de mercado para quem está de fora.

Preços da cana e como é formada a remuneração do produtor

O produtor de cana não vende o grão, como o produtor de soja. Ele vende a tonelada de cana com base no teor de ATR (Açúcar Total Recuperável) — a quantidade de açúcar que aquela tonelada de cana consegue gerar na usina. Quanto maior o ATR, maior o pagamento por tonelada.

O preço do ATR é calculado pelo Consecana (Conselho dos Produtores de Cana, Açúcar e Álcool de São Paulo) com base nas cotações do açúcar e do etanol no mercado. Quando o açúcar está em alta, o preço do ATR sobe. Quando o etanol sobe, idem. Em março de 2026, com o açúcar em NY acima de 22 cents/lb e o etanol hidratado em São Paulo a R$ 4,28/L, o ATR está sendo remunerado em torno de R$ 1,35 a R$ 1,42 por kg — resultando em receita de R$ 85 a R$ 95 por tonelada de cana para um canavial com 140 kg de ATR/tonelada.

Etanol vs gasolina: a paridade que define o consumo

A regra empírica do consumidor brasileiro é simples: se o etanol custa menos de 70% do preço da gasolina, vale abastecer com etanol (porque o etanol tem menor rendimento por litro que a gasolina). Se o etanol custar acima de 70% da gasolina, compensa usar gasolina.

Em março de 2026, com a gasolina comum em torno de R$ 6,20/L nos postos de São Paulo, o ponto de equilíbrio do etanol é R$ 4,34/L. Com o etanol a R$ 4,28/L, ele está marginalmente vantajoso — mas a competição é acirrada, e pequenas variações no preço da gasolina mudam a equação. Essa volatilidade de paridade impacta diretamente a demanda de etanol e, por consequência, a decisão das usinas sobre o mix de produção.

A usina que tem a melhor plataforma de análise de paridade — ajustando o mix de açúcar e etanol com rapidez — captura margens que a concorrente perde.

O açúcar em alta e o impacto no mix

Com o açúcar demerara em Nova York acima de 22 cents/lb em 2026 — sustentado por safra menor na Índia e na Tailândia, dois grandes competidores do Brasil — as usinas brasileiras estão direcionando mais cana para a produção de açúcar. Nos meses de moagem de pico (maio a novembro), estima-se que o mix esteja em torno de 55% açúcar e 45% etanol — contra uma média histórica de 47/53.

Essa migração de cana para açúcar reduz a disponibilidade de etanol no mercado doméstico, o que sustenta os preços do combustível nos postos. O efeito é benéfico para os produtores de cana (que recebem mais pelo ATR) e para os acionistas das usinas (que capturam margens maiores no açúcar), mas cria pressão de abastecimento de etanol em estados que dependem do combustível.

Expansão da cana e a fronteira do MATOPIBA

A área plantada com cana no Brasil é de aproximadamente 9,5 milhões de hectares, concentrada no Centro-Sul — especialmente São Paulo, Goiás e Minas Gerais. A expansão para o MATOPIBA é limitada pela logística de transporte: a cana não é viável a mais de 30–40 km da usina, o que exige investimento em novas plantas antes da expansão de área.

Usinas novas estão sendo inauguradas em Goiás e Mato Grosso do Sul, aproveitando a disponibilidade de terra e a proximidade da fronteira agrícola. Mas o investimento em uma usina greenfield (do zero) gira em torno de R$ 1,5 a R$ 2,5 bilhões — o que limita a velocidade de expansão e mantém o mercado relativamente concentrado entre os grandes grupos do setor.

Perspectivas para a safra 2026/27

O ciclo de cana-de-açúcar começa em março–abril nos estados do Centro-Oeste e vai até setembro–outubro no interior paulista. A safra 2026/27 começa a ser colhida em abril de 2026, com estimativas iniciais apontando para produção estável ou levemente superior à safra anterior — em torno de 620 a 640 milhões de toneladas de cana moída.

Se o açúcar mantiver as cotações acima de 20 cents/lb e o etanol seguir competitivo com a gasolina, a rentabilidade do setor deve ser positiva em 2026 — favorecendo investimentos em expansão de área e modernização de usinas que foram adiados nos anos de margens apertadas.