O que são El Niño e La Niña e por que o agronegócio precisa entender

El Niño e La Niña são os dois extremos de um fenômeno climático chamado ENSO (El Niño–Oscilação Sul), que consiste em variações da temperatura da superfície do Oceano Pacífico Equatorial. Durante o El Niño, essa temperatura fica acima do normal; durante La Niña, abaixo. Essas variações alteram os padrões de circulação atmosférica global, com efeitos concretos na distribuição de chuvas em diferentes regiões do planeta — incluindo o Brasil.

Para o agronegócio brasileiro, o ENSO é a variável climática de maior impacto econômico. Um ano de La Niña intenso pode reduzir a produção de soja no Sul do Brasil em 20 a 30%, ao mesmo tempo em que favorece as chuvas no Nordeste e em partes do Centro-Oeste. Conhecer a fase do ENSO e seus efeitos esperados por região é o ponto de partida para uma gestão de risco climático eficaz.

O cenário em 2026: saída da La Niña

O La Niña que prevaleceu durante o segundo semestre de 2025 e o início de 2026 está em processo de enfraquecimento, com a previsão do INPE e do NOAA americano apontando para transição para condições neutras de ENSO a partir de março-abril de 2026. Esse cenário é positivo para a safrinha de milho no Centro-Oeste — que fica menos exposta ao risco de deficit hídrico no final do ciclo — e neutro para o Sul do Brasil, que no La Niña enfrenta irregularidade de chuvas com viés de seca.

A segunda safra de soja no Rio Grande do Sul — que já sofreu perdas na primeira safra 2025/26 por conta do La Niña — deve ter condições mais favoráveis no segundo semestre de 2026, quando a transição para neutro estiver consolidada. Produtores gaúchos que pensam em expansão de área devem considerar esse cenário ao planejar.

Efeitos do El Niño e La Niña por região e cultura

Sul do Brasil (RS, SC, PR)

É a região mais sensível ao ENSO. Durante El Niño, as chuvas no Sul são acima da média — favorecendo a soja e o trigo de verão, mas podendo causar excesso de umidade que favorece doenças fúngicas. Durante La Niña, o risco é oposto: precipitação abaixo da média com veranicos prolongados no verão, que comprometem a soja e o milho em fases críticas. As perdas de 2022 e 2024 no Rio Grande do Sul durante episódios de La Niña foram superiores a R$ 15 bilhões.

Centro-Oeste (MT, GO, MS)

O El Niño tende a reduzir levemente as chuvas no início da safra no Centro-Oeste, mas o efeito é menos pronunciado que no Sul. O La Niña tem impacto mais variável: pode antecipar o final das chuvas de forma problemática para a safrinha de milho plantada tardiamente. Em geral, o Centro-Oeste é menos vulnerável ao ENSO que o Sul.

Nordeste (MATOPIBA, Semiárido)

El Niño causa seca severa no Semiárido nordestino — o que é catastrófico para a agricultura de sequeiro da região. La Niña, por outro lado, tende a favorecer as chuvas no Semiárido. Para o MATOPIBA (fronteira agrícola entre MA, TO, PI e BA), os efeitos do ENSO são mais moderados, com maior influência dos sistemas convectivos tropicais.

O ENSO não determina a safra sozinho. Mas saber a fase do fenômeno e seus efeitos esperados por região é o mínimo de inteligência climática que o produtor moderno precisa ter.

Como usar previsões climáticas na tomada de decisão

As previsões sazonais do INPE (Climanálise) e do CPTEC são públicas e gratuitas, publicadas mensalmente com perspectivas de chuva para os três meses seguintes. Complementarmente, serviços privados como o Climate Corporation (The Weather Company), Speedforecast e Climate Fieldview oferecem previsões de maior resolução espacial — mais úteis para decisões em nível de fazenda.

A previsão climática sazonal não é determinística: ela indica probabilidade de chuvas acima ou abaixo da média, não datas exatas de chuva. Mas essa informação probabilística é valiosa para decisões como: antecipar ou atrasar o plantio em função do risco de seca na emergência; ajustar a dose de seguro agrícola contratado; e calibrar a estratégia de comercialização — se há alto risco climático, vender menos antecipado preserva optionalidade caso a safra seja afetada.

Adaptações de manejo para reduzir o risco climático

Independente da fase do ENSO, algumas práticas agronômicas reduzem a vulnerabilidade da lavoura a eventos climáticos extremos. O plantio direto com alta cobertura de palha aumenta a retenção de água no solo, reduzindo o impacto de veranicos de até 20 dias. A escolha de cultivares com ciclo adaptado à janela climática regional — evitando que a floração coincida com o período de maior risco de seca — é outro ajuste que não custa mais por hectare mas reduz significativamente o risco.

A irrigação de salvamento — uso pontual do pivô em momentos críticos de déficit hídrico, sem irrigar o ciclo inteiro — é uma alternativa de custo razoável para quem tem infraestrutura disponível. Aplicar 20 a 30 mm de água na floração da soja, em caso de veranico de 10 dias, pode salvar de 8 a 15 sacas por hectare que seriam perdidas sem a aplicação.