O que é o hidrogênio verde e por que o Brasil tem vantagem

O hidrogênio verde é produzido pela eletrólise da água — processo que usa energia elétrica para separar as moléculas de água em hidrogênio (H₂) e oxigênio (O₂). Quando essa energia elétrica vem de fontes renováveis (solar, eólica, hidrelétrica), o hidrogênio gerado tem pegada de carbono próxima de zero — daí o adjetivo "verde".

O Brasil tem três vantagens estruturais para se tornar grande produtor de hidrogênio verde: abundância de energia renovável barata (solar no Nordeste, eólica no litoral e interior, hidrelétrica no Sul e Centro-Oeste), disponibilidade de água para eletrólise nas bacias hidrográficas e costa marítima próxima para exportação — o que reduz o custo logístico para os mercados importadores europeus e asiáticos. O custo de produção de H₂ verde no Brasil é estimado hoje em US$ 4,50 a US$ 6,00 por kg — ainda acima dos US$ 2,00 necessários para competir com o hidrogênio cinza (produzido a partir de gás natural). Mas a trajetória de queda é consistente com a meta governamental de US$ 3,00/kg até 2030.

Os projetos em andamento no Brasil em 2026

O Complexo Industrial e Portuário do Pecém (Ceará) é o polo mais avançado de hidrogênio verde no Brasil. Em 2026, os primeiros eletrolisadores de grande escala (acima de 100 MW) entram em operação, com produção destinada principalmente à exportação para a Europa — onde a demanda é crescente após a política REPowerEU que incentiva substituição do gás natural russo por hidrogênio verde importado.

No Rio Grande do Norte, o projeto Porto do Açu Hidrogênio e a parceria entre a EDPR e fundos europeus preveem produção de amônia verde (NH₃) — molécula que serve como veículo de transporte do hidrogênio por ser mais fácil de liquefazer que o H₂ puro. A amônia verde é candidata a substituir a amônia fóssil usada como matéria-prima de fertilizantes nitrogenados — o que cria uma conexão direta com o agronegócio.

A conexão com o agronegócio: fertilizantes e energia

A relação mais relevante entre hidrogênio verde e agronegócio em 2026 está nos fertilizantes nitrogenados. A ureia e o nitrato de amônio — que representam 30 a 35% do custo de fertilizantes no Brasil — são produzidos a partir da amônia, que por sua vez é feita a partir do hidrogênio (processo Haber-Bosch). Se a amônia fosse produzida com hidrogênio verde em vez de gás natural, o fertilizante nitrogenado se tornaria "verde" — com menor pegada de carbono e potencialmente mais fácil de exportar para mercados europeus que exigem certificação de pegada de carbono nos produtos agrícolas.

A Petrobras e a Yara (maior fabricante de fertilizantes da Noruega, com operações no Brasil) têm estudos de viabilidade para produção de amônia verde no Brasil — com previsão de primeiros volumes comerciais entre 2028 e 2030. Quando disponível, o fertilizante nitrogenado de base verde poderá reduzir a pegada de carbono da soja, do milho e da cana-de-açúcar brasileiros — um diferencial crescentemente relevante para exportação.

O hidrogênio verde não vai abastecer o trator em 2026 — isso ainda está a 5 a 8 anos de distância. Mas vai transformar a cadeia de fertilizantes antes disso. E essa transformação começa agora.

Uso direto no campo: quando e como

O uso de hidrogênio verde diretamente em máquinas agrícolas — tratores com células de combustível de H₂ — é a aplicação mais falada mas a mais distante de viabilidade comercial. Os desafios são: a necessidade de rede de abastecimento rural (inexistente), o custo ainda elevado das células de combustível e a adaptação das máquinas. Os fabricantes (John Deere, CNH, AGCO) têm protótipos mas não têm data de lançamento comercial confirmada para antes de 2030.

O uso mais próximo é em secadores de grãos estacionários — que hoje funcionam a gás natural ou diesel e poderiam, em localidades próximas a plantas de produção de H₂, ser adaptados para queima de hidrogênio. Testes em silos cooperativos no Rio Grande do Sul, em parceria com empresas de energia, estão previstos para 2027.

O Brasil como exportador de energia limpa para o agronegócio global

A perspectiva mais ampla é o Brasil se posicionando como fornecedor de energia limpa — via amônia verde e hidrogênio líquido — para o agronegócio de países que não têm recursos renováveis suficientes para produzir localmente. Japão, Coreia do Sul e Alemanha são os maiores candidatos a importar hidrogênio e amônia verde brasileiros para descarbonizar suas indústrias, incluindo a produção de fertilizantes. Esse posicionamento — que ainda está em fase de negociação e de construção de infraestrutura — pode se tornar uma das maiores oportunidades de exportação do Brasil na próxima década.