O surgimento de um novo mercado interno

Até 2018, o Mato Grosso — maior produtor de milho do Brasil — enfrentava um paradoxo: produzia mais do que o país conseguia consumir internamente no curto prazo e dependia de longos e caros trajetos rodoviários para escoar o excedente aos portos. O preço do milho no estado era historicamente inferior ao de outras regiões exatamente por isso.

A chegada das primeiras usinas de etanol de milho mudou essa equação. Ao processar o grão localmente, elas eliminam o custo de frete até o porto, pagam um preço competitivo ao produtor e ainda geram subprodutos — como o DDG (grão seco de destilaria), rico em proteína — que alimentam o mercado de rações local. Um ciclo virtuoso que ainda está em expansão.

Como funciona a cadeia do etanol de milho

A produção de etanol de milho segue um processo de fermentação seca. O grão é moído, misturado com água e enzimas, fermentado e destilado — gerando etanol hidratado para mistura na gasolina. Cada tonelada de milho produz aproximadamente 410 litros de etanol, além de 280 kg de DDG e 30 kg de óleo de milho como coprodutos.

O DDG tem valor proteico significativo — entre 26% e 28% de proteína bruta — e substitui parcialmente a soja na formulação de rações para aves e suínos. Isso cria uma sinergia interessante com a produção de soja regional: as usinas de etanol compram milho, geram DDG que concorre com a soja farelo no mercado local de rações, e os produtores de soja e milho se beneficiam da demanda local por ambos os grãos.

Principais usinas em operação no Centro-Oeste

Impacto no preço do milho no Mato Grosso

O efeito mais imediato do etanol de milho no mercado regional é a sustentação do preço local. Com as usinas competindo pela matéria-prima, o produtor do Mato Grosso passou a ter uma alternativa ao comprador exportador. Nos períodos de safra — quando o milho está disponível e os preços tendem a cair — as usinas funcionam como amortecedor de demanda.

A estimativa é que cada usina de porte médio (300 milhões de litros/ano) consuma entre 700 mil e 900 mil toneladas de milho por ciclo — equivalente à produção de cerca de 15.000 hectares. Quando doze ou mais plantas estão em operação simultânea, o volume absorvido começa a ser representativo no balanço estadual.

O etanol de milho não vai resolver sozinho o problema de preço do milho mato-grossense. Mas ele mudou definitivamente a estrutura de demanda local — e isso tem valor.

Oportunidades para o produtor rural

Para o produtor de milho, a presença de usinas nas proximidades cria oportunidades concretas. A mais imediata é a possibilidade de vender o grão sem frete de longa distância — economizando de R$ 15 a R$ 25 por saca dependendo da localização. A segunda é o acesso ao DDG como insumo de ração para integrar uma pequena operação de confinamento ou suinocultura na propriedade.

Alguns modelos mais avançados incluem contratos de fornecimento plurianuais entre usinas e produtores vizinhos, com preço mínimo garantido por safra — uma forma de gestão de risco que reduz a volatilidade de receita do produtor sem exigir sofisticação em derivativos financeiros.

Desafios e limitações do modelo

O etanol de milho enfrenta dois desafios estruturais no Brasil. O primeiro é a competição com o etanol de cana-de-açúcar, que no Centro-Sul tem custos de produção menores por litro e uma cadeia produtiva muito mais desenvolvida. O segundo é a dependência do preço do milho: quando o grão está caro, a usina perde competitividade frente à cana ou ao etanol importado.

A viabilidade do modelo no longo prazo passa pela redução contínua dos custos de conversão, pelo aproveitamento máximo dos coprodutos e pela expansão da frota flex-fuel no Brasil — que garante demanda crescente por etanol mesmo em cenários de alta do preço do milho.