O problema invisível que rouba bilhões da soja brasileira

Os nematoides são vermes microscópicos que vivem no solo e parasitam as raízes das plantas — e são responsáveis por perdas estimadas em R$ 35 bilhões por ano na sojicultura brasileira, segundo dados da Embrapa. Apesar da magnitude do problema, o dano frequentemente passa despercebido pelo produtor: as plantas atacadas por nematoides têm aparência de deficiência nutricional — amarelecimento, crescimento atrofiado, vagens com menos grãos — sintomas que são confundidos com falta de fertilizante ou compactação do solo.

Estima-se que mais de 50% da área de soja brasileira esteja infestada por ao menos uma espécie de nematoide em níveis que causam redução de produtividade. A expansão do monocultivo de soja — sem rotação com culturas não-hospedeiras — e o plantio direto que reduz a perturbação do solo (e consequentemente a exposição dos nematoides a temperaturas letais) criaram condições ideais para a proliferação dessas pragas ao longo das últimas duas décadas.

Os principais gêneros de nematoides na soja

Meloidogyne spp. — nematoide-de-galha

As espécies do gênero Meloidogyne (especialmente M. javanica e M. incognita) são as mais prejudiciais na soja. As fêmeas parasitam as raízes e induzem a formação de galhas — estruturas bulbosas facilmente visíveis a olho nu quando as raízes são examinadas. Essas galhas comprometem a absorção de água e nutrientes, além de abrir portas para fungos de solo patogênicos como Fusarium.

A M. javanica tem ampla distribuição geográfica no Cerrado e no Sul. A M. incognita é mais agressiva em temperaturas elevadas, sendo especialmente problemática no MATOPIBA. A M. enterolobii — introduzida mais recentemente e capaz de quebrar a resistência de cultivares que eram eficazes contra M. javanica — é a espécie que mais preocupa o setor em 2026 por sua agressividade e pela ausência de cultivares comerciais com resistência comprovada a ela.

Pratylenchus spp. — nematoide-das-lesões

O Pratylenchus brachyurus é o nematoide de maior distribuição no Brasil e um dos de maior impacto econômico na soja do Cerrado. Diferente do Meloidogyne que forma galhas, o Pratylenchus penetra e migra dentro das raízes causando lesões necróticas que reduzem o sistema radicular sem produzir sintomas externos facilmente identificáveis. A diagnose requer extração e contagem de nematoides por amostra de solo e raiz — processo laboratorial que muitos produtores ainda não adotam sistematicamente.

Nematoide não espera você decidir o que fazer. Cada safra sem manejo adequado é uma safra com população maior no solo — e população maior significa dano maior. O custo de esperar é sempre superior ao custo de agir.

Como diagnosticar corretamente antes de manejar

O manejo eficaz de nematoides começa com o diagnóstico correto — saber quais espécies estão presentes, em que densidade e em que áreas. A coleta de amostras de solo e raiz para análise nematológica é o passo essencial: amostras coletadas em ziguezague no talhão, na profundidade de 0 a 30 cm, enviadas ao laboratório ainda úmidas e em sacos plásticos refrigerados.

O resultado do laboratório informa a população de nematoides por 100 cm³ de solo ou por 10g de raízes. Com esse número, o técnico pode calcular o nível de infestação (baixo, médio ou alto) e recomendar o protocolo de manejo adequado — desde simples rotação de culturas em áreas de baixa infestação até combinação de cultivar resistente + tratamento de sementes + rotação em áreas de alta pressão.

Estratégias de manejo da resistência: o que funciona

A rotação de culturas com hospedeiros não-favoráveis é a ferramenta mais eficaz de redução de população de nematoides. O milho, embora seja um hospedeiro parcial de algumas espécies, reduz significativamente a população de Meloidogyne quando cultivado no verão seguido de soja. O sorgo, o milheto e a crotalária (Crotalaria spectabilis) têm efeito supressor bem documentado sobre o Meloidogyne — a crotalária libera compostos tóxicos para os nematoides e é usada como planta-armadilha.

Cultivares de soja com resistência ao nematoide-de-galha são a segunda linha de defesa. Em 2026, há mais de 80 cultivares registradas com resistência a M. javanica — mas a resistência a M. incognita é menos frequente e a resistência a M. enterolobii é praticamente inexistente nas cultivares comerciais. A recomendação é usar cultivares resistentes mesmo em áreas de alta pressão, combinadas com rotação — não como solução única.

O tratamento de sementes com nematicidas (abamectina, fluensulfone, fluopyram) é eficaz para proteção da semente e das raízes nas primeiras semanas após a germinação — período crítico em que a planta mais jovem é mais vulnerável ao parasitismo. O efeito é temporário (4 a 6 semanas), não reduz a população do solo de forma duradoura, mas protege a fase de estabelecimento quando combinado com cultivar resistente e rotação.