Por que o Proagro não é suficiente para a maioria dos produtores

O Proagro é um instrumento valioso — mas tem limites que o tornam insuficiente como única proteção para o produtor moderno. A cobertura é vinculada ao valor do financiamento rural: se o produtor investiu R$ 800.000/ha de custo próprio além do financiado, esse valor não está coberto pelo Proagro. Além disso, o programa não cobre variações de preço — se a safra for boa mas o preço da commodity despencar, o Proagro não compensa a receita perdida.

Em 2026, o mercado de seguros agrícolas privados cresceu 45% em prêmios emitidos — sinal de que o produtor está percebendo a necessidade de cobertura complementar. As seguradoras que operam no segmento — Mapfre, Allianz, Swiss Re, Porto Seguro Agro, HDI e a cooperativista Ailos — oferecem produtos cada vez mais sofisticados e adaptados ao perfil de cada produtor.

Os principais tipos de seguro agrícola privado

Seguro multi-risco (MPCR)

O seguro multi-risco cobre perdas de produção causadas por qualquer evento climático adverso — seca, excesso de chuva, granizo, geada, ventos fortes. O sinistro é avaliado por vistoria de perito a campo, de forma similar ao Proagro. A cobertura pode ser contratada para o custo de produção total (incluindo o custo próprio) ou para um percentual da receita esperada.

O prêmio varia de 4 a 9% do valor segurado, dependendo do produto, da região, do histórico de sinistros e do percentual de franquia escolhido. Franquias maiores (o produtor absorve as primeiras perdas) reduzem o prêmio mas aumentam o risco de desembolso em sinistros menores.

Seguro paramétrico (por índice)

O seguro paramétrico é o que mais cresceu no Brasil nos últimos dois anos. Em vez de avaliar o dano na lavoura, ele paga automaticamente quando um índice pré-definido é atingido — por exemplo, quando a pluviometria acumulada em determinado período fica abaixo de X mm, ou quando o índice de vegetação (NDVI por satélite) cai abaixo de determinado threshold. Não há necessidade de vistoria — o pagamento é automático quando o gatilho é acionado.

A vantagem é a agilidade do pagamento (dias, não meses) e a eliminação do custo e do conflito de interesse da vistoria. A desvantagem é o risco de basis — situação em que o índice não reflete adequadamente o dano real da propriedade específica (ex: a estação meteorológica de referência registrou chuva normal, mas a fazenda em particular ficou seca por efeito topográfico local).

Seguro de receita

O seguro de receita protege não apenas contra perda de produção, mas também contra queda de preço da commodity. O produtor assegura uma receita mínima por hectare — por exemplo, R$ 8.000/ha em soja — e se a combinação de preço × produção gerar menos que isso, o seguro complementa. É o produto de maior valor para o produtor que tem alta exposição a preço de commodity, mas também o de maior prêmio — geralmente 6 a 12% do valor segurado.

Seguro não é custo — é gestão de risco. O produtor que não assegura está especulando com a natureza e com o mercado ao mesmo tempo. Perder tudo em um granizo ou em uma La Niña não é azarate — é falta de planejamento.

Seguro paramétrico por satélite: a inovação de 2025/26

A maior inovação no seguro agrícola dos últimos anos é a criação de produtos paramétricos baseados em dados de satélite — especificamente em índices de vegetação (NDVI e EVI) calculados a partir de imagens semanais de alta resolução. Quando o índice cai abaixo de um threshold calibrado para a cultura e região, o seguro aciona o pagamento automaticamente, sem vistoria.

Startups como a americana Arbol e a brasileira Terracycle desenvolveram esses produtos para o mercado brasileiro, com pilotos em soja no Cerrado e café no Sul de Minas. O produto tem aceitação crescente entre produtores tech-savvy que confiam nos dados de satélite e valorizam a agilidade do pagamento. O desafio regulatório — a SUSEP (Superintendência de Seguros Privados) ainda não tem marco regulatório definitivo para seguros paramétricos no agro — é o principal gargalo para a expansão rápida do modelo.

Como escolher o seguro adequado

A escolha do seguro ideal depende de: qual é o maior risco da propriedade (clima ou preço?), quanto do custo é próprio versus financiado, qual é a capacidade de absorção de perdas sem seguro (reserva financeira disponível) e qual é o histórico de sinistros da região. Um produtor com reserva financeira robusta pode optar por franquias maiores e prêmios menores. Um produtor muito alavancado, sem caixa de reserva, precisa de cobertura mais abrangente mesmo com prêmio maior.