O trigo brasileiro: produção insuficiente, mercado dependente

O Brasil consome aproximadamente 12 milhões de toneladas de trigo por ano — para pão, macarrão, biscoitos, bolos e outros produtos de panificação e confeitaria. A produção nacional, concentrada no Paraná e no Rio Grande do Sul, alcançou 6,5 milhões de toneladas na safra 2025 — o maior volume dos últimos anos, mas ainda insuficiente para cobrir metade do consumo interno.

A diferença — aproximadamente 5,5 milhões de toneladas — é importada, majoritariamente da Argentina. Esse fluxo bilateral, facilitado pelo Mercosul (que garante isenção de tarifa entre os países), faz do Brasil o maior importador mundial de trigo argentino e cria uma interdependência agrícola que beneficia os dois países mas expõe o Brasil a variações na safra argentina.

Cotação do trigo em 2026

O preço do trigo nas principais praças produtoras do Paraná e Rio Grande do Sul opera em março de 2026 entre R$ 75 e R$ 82 por saca de 60 kg — nível que representa queda em relação ao pico de R$ 110 a R$ 120/sc registrado em 2022, quando a guerra na Ucrânia (grande exportadora mundial de trigo) criou choque de oferta global.

A recuperação da produção ucraniana em 2023-2025 e a safra argentina acima da média em 2025/26 normalizaram os preços. Para o produtor brasileiro que tem custo de produção na faixa de R$ 55 a R$ 70/sc — dependendo da produtividade e dos gastos com fungicidas — a margem atual é positiva mas estreita.

Por que o Brasil não amplia a produção de trigo

A expansão do trigo no Brasil encontra limites climáticos e agronômicos reais. A cultura exige temperaturas mais amenas no período de enchimento de grãos — o que restringe sua área de cultivo economicamente viável ao Sul do Brasil. Tentativas de expandir o trigo para o Cerrado com cultivares adaptadas ao calor têm resultado agronômico ainda insatisfatório para competir com soja e milho em rentabilidade por hectare.

Dentro da região Sul, a concorrência com a soja de segunda safra (na janela de verão) e com a cevada (que paga prêmio extra pela indústria cervejeira) limita a área adicional disponível para o trigo. O produtor racional aloca sua terra para a cultura de maior retorno por hectare — e o trigo nem sempre é essa cultura.

O trigo é a cultura de inverno mais importante do Sul do Brasil — mas a decisão de plantio começa pela análise do custo de produção e do preço futuro, não pela tradição.

Custo de produção do trigo no Sul

O custo de produção do trigo no Paraná em 2026 está estimado entre R$ 55 e R$ 70 por saca, dependendo da produtividade da lavoura. Os maiores componentes são: fertilizantes (25 a 30% do custo), fungicidas para controle de ferrugem e brusone (15 a 20%) e operações mecanizadas (20%). O custo de adubação é relativamente maior que na soja porque o trigo, ao contrário da leguminosa, não fixa nitrogênio biologicamente e exige aplicação de ureia em cobertura.

A produtividade média do trigo no Brasil está em torno de 55 sacas por hectare — número que esconde grande variação entre lavouras bem manejadas (acima de 70 sc/ha) e lavouras com problemas fitossanitários ou de nutrição (abaixo de 40 sc/ha). O controle de fungos foliares — especialmente a ferrugem-da-folha e a brusone — é o principal fator de diferenciação de produtividade.

O mercado de trigo especial e as oportunidades de valor agregado

Nem todo trigo é igual. O mercado distingue trigos por força de glúten (W), que determina a adequação para diferentes usos industriais. Trigos de força (W acima de 250) são usados em panificação artesanal e pão de forma de alta qualidade — e pagam prêmio de R$ 8 a R$ 15/sc sobre o trigo básico. Trigos duros (semolina) para macarrão premium são quase exclusivamente importados, pois o clima brasileiro não favorece a produção de trigo durum de qualidade.

Produtores que cultivam variedades de alta força e vendem diretamente para moinhos que precisam de trigo com características específicas conseguem prêmios que melhoram significativamente a rentabilidade da cultura. Esse mercado de nicho requer contrato prévio com o moinho, planejamento da cultivar a ser plantada e atenção ao manejo para não comprometer a qualidade do grão.