O feijão: a cultura mais volátil do agronegócio brasileiro

O feijão tem uma característica que nenhuma outra grande cultura brasileira possui: três safras por ano. A primeira safra (das águas) é plantada entre setembro e novembro em Minas Gerais, Goiás e São Paulo. A segunda safra (da seca) começa em janeiro e fevereiro. A terceira safra (irrigada de inverno) vai de maio a julho, principalmente em Goiás e Minas Gerais sob irrigação por pivô central.

Essa cadência de três safras cria um mercado com ciclos de oferta e demanda que se renovam a cada quatro meses — o que explica a volatilidade excepcional de preços. Uma quebra de safra em uma região afeta imediatamente o abastecimento antes que a próxima safra possa compensar. Ao contrário da soja, que tem apenas um ciclo no Centro-Oeste, o feijão não tem "período de entressafra" longo suficiente para criar escassez sustentada.

Cotação do feijão em março de 2026

O feijão carioca — que representa cerca de 70% do consumo brasileiro — está sendo negociado em torno de R$ 320 por saca de 60 kg em São Paulo em março de 2026. O feijão preto, consumido especialmente no Sul do Brasil, opera na faixa de R$ 280/sc no Paraná. Esses preços estão acima da média histórica deflacionada, sustentados por uma primeira safra menor que o esperado em Minas Gerais.

No mesmo período de seis meses anteriores (setembro de 2025), o feijão carioca chegou a R$ 450/sc após quebra de safra em parte da região produtora do Triângulo Mineiro — alta de quase 40% que se desfez rapidamente com a entrada da segunda safra. Essa amplitude de variação é o que torna o feijão tão atrativo para especuladores e tão arriscado para produtores sem proteção de preço.

Principais estados produtores e suas safras

Minas Gerais é o maior produtor nacional, responsável por aproximadamente 30% da produção total. A região do Triângulo Mineiro e o Sul de Minas concentram as maiores lavouras, com produtores que adotaram a tecnificação — irrigação, sementes melhoradas, manejo nutricional de precisão — e transformaram o feijão de cultura de subsistência em negócio de escala.

Goiás ocupa o segundo lugar, com destaque para a terceira safra irrigada que abastece o mercado nacional no período de menor oferta (junho a agosto). O Paraná é o principal produtor de feijão preto e tem forte tradição na cultura nas regiões do Sudoeste e Centro-Ocidental do estado.

No feijão, o preço de venda pode ser melhor ou pior que o de plantio por uma diferença de 30 dias. Quem planta sem contrato está jogando no roleta.

Custo de produção e rentabilidade em 2026

O custo de produção do feijão irrigado (terceira safra) está na faixa de R$ 180 a R$ 240 por saca, considerando os custos de irrigação, sementes de alto valor, fungicidas e mão de obra. Para o feijão de sequeiro (primeira e segunda safra), o custo cai para R$ 120 a R$ 160/sc, mas o risco climático é significativamente maior.

Com o preço atual acima de R$ 300/sc, a margem para ambos os sistemas é positiva — o que estimula o plantio da segunda safra e provavelmente levará a aumento de oferta que pressionará os preços nos próximos meses. Esse comportamento cíclico — preço alto estimula plantio, maior oferta derruba preço — é a principal razão da volatilidade estrutural do mercado de feijão.

Como o produtor pode se proteger da volatilidade

A proteção de preço no feijão é mais difícil que na soja, pois não há contrato futuro líquido na B3 para a cultura. O mercado de feijão funciona predominantemente via contratos a termo diretos com atacadistas, cooperativas e grandes redes varejistas — que frequentemente exigem padrões de qualidade rigorosos em troca da previsibilidade de preço.

Uma estratégia alternativa é a armazenagem própria do grão: produtores que constroem ou alugam silo podem aguardar períodos de preço mais favorável antes de vender. Com o feijão, a janela de oportunidade pode ser de apenas 30 a 60 dias, então a decisão de armazenar precisa ser acompanhada de monitoramento próximo do mercado.